quarta-feira, 1 de maio de 2019

Seguindo as pegadas de Peter Pan (Quando a morte molda a vida...)



Olá!

Na peça de teatro "Peter Pan, ou o menino que não cresceria" que estreou em Londres em 1904, numa das falas de Peter há uma frase que se tornou célebre e foi incluída no romance de 1911:

"Morrer será uma grande aventura". 

A frase foi originalmente dita por George Llewelyn Davies, o mais velho dos meninos Davies, numa das ocasiões em que Barrie contava aos garotos as histórias em que Peter Pan levava para a Terra do Nunca os bebês que morriam. Foi uma das frases que Barrie registrou em seus tradicionais cadernos de anotações.

Embora tenha se tornado "uma das linhas mais memoráveis de Peter Pan", segundo Andrew Birkin, um dos biógrafos de Barrie, ela teve de ser retirada da peça em 1914, quando as notícias de jovens morrendo nos campos de batalha da recém iniciada Primeira Guerra Mundial (1914-1919) começaram a chegar a Londres.

A morte é um fato da vida, todos sabemos, porém, no caso de Barrie não é exagero dizer que a morte "moldou" a vida dele de um modo particular que chama a atenção e é mencionado em diversas fontes que consultei.
Desde os 6 anos de idade, quando seu irmão David (o favorito da família) perdeu a vida tragicamente num acidente de patinação em 1867, Barrie foi acumulando perdas que marcaram profundamente sua passagem pela vida e seus escritos. (Veja nota 1)

  Em 1895 outra irmã de Barrie, Jane Ann, faleceu aos 48 anos de idade. Jane Ann dedicou a vida a cuidar da mãe que viva mergulhada em depressão; em 1897 Margaret Ogilvy Barrie, a mãe, faleceu; em 1902 Barrie perde o pai David Barrie; no mesmo ano, outra irmã, Isabella Ogilvy Barrie; em 1903, mais uma irmã, Sarah Mitchell Barrie. (Veja nota 2)

Em 1906, Barrie amargaria a morte de seu agente, Arthur Addison Bright. Bright cometeu suicídio após a descoberta de que havia se apropriado indevidamente de 28.000,00 Libras pertencentes a Barrie.

Em 1913 Barrie foi condecorado com o título de Baronete, passando a se chamar Sir James Barrie e àquela altura, dos 12 membros que compunham sua família imediata, restavam somente três vivos além dele mesmo: seu querido irmão Alexander (Alec) Ogilvy Barrie, Mary Ann Galloway e Margareth Henderson.

Na família que Barrie havia adotado como sua, os Llewelyn Davies, sofreu enormemente a perda de
 Arthur, em 1907 e mais ainda a de Sylvia, em 1910, os pais dos meninos que inspiraram Peter Pan dos quais Barrie tornou-se um dos tutores em 1911.

Em 1914 Barrie sofreu outro golpe: seu irmão querido,  Alexander (Alec) Ogilvy Barrie falece aos 72 anos de idade. Alec teve um papel muito importante na juventude de Barrie, responsável por sua educação até sua mudança definitiva para Londres.

Em 1915, George Llewelyn Davies, o mais velho dos meninos Davies, perdeu a vida no campo de batalha em Flandres, na Bélgica, após ser atingido por um tiro na cabeça durante a noite. Ele e o irmão Peter haviam se voluntariado para combater no front quando o Reino Unido entrou na Primeira Guerra Mundial. Tinha apenas 21 anos de idade.

George foi o primeiro menino que Barrie conheceu em Kensington Gardens em 1897, juntamente com seus irmãos John e Peter.

Aqui, ilustração de Arthur Rackham (1906)
George inspirou o personagem David, em Peter Pan in Kensington Gardens
Via

George, em 1906, com seu coelho "Mr"

George em 1912, aos 18 anos de idade
Último ano no Eton College

George em 1914, numa produção teatral do
Amateur Dramatic Club

George em Julho de 1914

O personagem George Darling, pai de Wendy, Michael e John no romance Peter & Wendy
 teve seu nome inspirado por George. A morte dele abalou profundamente James Matthew Barrie e o único consolo do autor foi saber que o jovem George, a julgar pelo conteúdo de uma carta que Barrie escreveu para seu amigo Charles Turley Smith, morreu sem sofrimento:

"Apenas uma palavra para dizer que George foi morto instantaneamente. Foi um ataque noturno. Recebi uma carta dele dois dias depois de saber que ele estava morto. (...) Eu sinto dolorosamente por Peter, entre quem e George houve uma devoção que talvez não seja muito comum entre irmãos." (Veja nota 3)

Ainda em 1915, Charles Frohman, o produtor da peça Peter Pan, estava a caminho de Londres para um encontro com Barrie, mas perdeu a vida à bordo do luxuoso transatlântico Lusitania, que foi torpedeado por submarinos alemães e naufragou, matando 1150 pessoas.

O Lusitania, durante o naufrágio
Arquivo Federal Alemão, ID: DVM 10 Bild-23-61-17

Seis anos depois, em 1921, outra tragédia se abateu na vida de Sir James Barrie: Michael Llewelyn Davies, o preferido de Barrie, o menino que definitivamente inspirou Peter Pan e com o qual o escritor estabeleceu fortes laços ao longo da vida e nutria grandes expectativas profissionais futuras, afogou-se no Sandford Lasher, um trecho do rio Tâmisa localizado a poucos quilômetros de Oxford.

Michael tinha 20 anos de idade e na ocasião do afogamento estava com seu amigo, Rupert Buxton, que também morreu. 

Relatório do jornal sobre o afogamento dos jovens
Via

Segundo o biógrafo de Barrie, Andrew Birkin, e um artigo do "Oxford Chronicle" referente ao inquérito do médico legista,

"A água tinha de 20 a 30 pés (6 a 9 m) de profundidade, mas calma. Buxton era um bom nadador, mas Davies tinha medo de água e não sabia nadar com eficiência. Uma testemunha no inquérito do legista relatou que um homem estava nadando para se juntar ao outro, que estava sentado em uma pedra no açude, mas experimentou "dificuldades" e o outro mergulhou para alcançá-lo. No entanto, a testemunha também relatou, quando ele viu suas cabeças juntas na água, elas não pareciam estar lutando. Seus corpos foram recuperados "juntos" no dia seguinte (às vezes, erroneamente relatados como "amarrados juntos"). A conclusão do legista foi que Davies se afogou acidentalmente, e Buxton se afogou tentando salvá-lo." (Veja nota 4)

Michael e sua mãe, Sylvia em 1905
Fotografados por James Barrie
Via


Michael em 1906 (6 anos de idade)
Fotografado por James Barrie
Via

Michael, usando trajes de Peter Pan numa das poses para
a futura estátua que seria colocada no Kensington Gardens em 1912
Via

JM Barrie como Hook e Michael como Peter Pan, no
gramado de Rustington, em 1906


Michael, aos 17 anos
Via

 Segundo Jack Zipes, a morte de Michael,

"foi especialmente devastadora para Sir James Barrie. (...) Perdeu a alegria de escrever para o palco, pois nunca se conformou com a morte de Michael. (...) Os poderes criativos de Barrie tinham chegado ao fim."

Mas nem tudo estava totalmente perdido. Alguns anos antes, em 1917, Barrie havia conhecido Lady Cynthia Asquith e este será o assunto do próximo post.

Até lá!
Beijo
Ju


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Notas:
(1) Antes do nascimento de James Matthew Barrie em 1860, duas de suas irmãs já haviam falecido, ambas no ano de 1851: Elizabeth How Barrie (aos 2 anos de idade) e Agnes Matthew Barrie (com 1 ano de idade). 
(2) Todos os dados referentes à família imediata de Barrie foram obtidos no excelente site genealógicohttps://www.geni.com, com exceção de Margareth Henderson, da qual não encontrei nenhuma informação.
(3) http://www.jmbarrie.co.uk/view/3384
(4) https://en.wikipedia.org/wiki/Michael_Llewelyn_Davies

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Seguindo as pegadas de Peter Pan (e as fadas levaram a culpa!)




Olá, boa tarde!

Finalizado o projeto que resultou na minha versão do personagem, estou de volta para continuar a história que comecei a contar aqui. Minha intenção é chegar até o ano em que James Matthew Barrie deixou de caminhar na Terra.

Aproveito para agradecer as manifestações que recebi aqui e no Messenger referentes à minha versão do Peter Pan. Muito obrigada!

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E as fadas levaram a culpa!

Na calada da noite de 30 de Abril de 1912 uma curiosa movimentação aconteceu em determinado local do Kensington Gardens...

Já sabemos que na época em que Barrie viveu, os seres mágicos que habitam aqueles jardins -  sobretudo as fadas - tornavam-se donos do lugar e se movimentavam livremente após o fechamento dos portões, mas naquela noite algo diferente aconteceu e embora elas não tivessem nada a ver com o fato, as fadas acabaram levando a culpa...

E o que acontecia na calada da noite de 30 de Abril de 1912 no Kensington Gardens

Desde a estreia da peça de teatro em 1904, Peter Pan tornou-se assunto corrente e com a publicação do livro Peter & Wendy, em 1911, mais ainda. As crianças do Reino Unido, sobretudo, não falavam em outra coisa.

Para celebrar o Dia de Maio com uma surpresa especialmente preparada para as crianças, Barrie colocou uma estátua de Peter Pan nos jardins, exatamente no local onde o personagem, ainda bebê teria aterrissado em 1902, após deixar seu quarto e sair voando. (Veja nota 1)

A ideia surgiu em 1906, ano do lançamento de "Peter Pan in Kensington Gardens" e Barrie idealizou uma estátua do personagem inspirada na figura de Michael Llewelyn Davies, seu favorito dentre os meninos da família Davies.

A estátua de bronze foi feita pelo escultor George Frampton e, por motivos que ainda desconheço, ela não retratava Michael Llewelyn Davies, como Barrie havia determinado, mas um outro menino e isso causou um mal estar entre Barrie e o escultor. 

De acordo com Patricia Bou:

"(...) Barrie não estava completamente satisfeito com o trabalho de Frampton. O escultor não havia modelado Peter Pan em Michael Llewellyn Davies como Barrie pretendia, mas em vez disso, usara outro garoto, possivelmente James W. Shaw ou William A. Harwood. Barrie disse sobre a estátua: "Não mostra o diabo em Peter". " (Veja nota  2)

Assim mesmo, foi erguida durante a noite de 30 de Abril de 1912 porque a Prefeitura da cidade não havia concedido licença a Barrie para erguer uma estátua dentro do Kensington Gardens. 

Mas Barrie não pretendia que a estátua fosse imediatamente vista. Ele queria que ela fosse encontrada inesperadamente... Assim, ela foi erguida ao lado do lago Long Water, em meio aos arbustos, exatamente onde Peter Pan aterrisou em 1902, ainda bebê. Somente quem passasse por ali a veria...


De acordo com Patricia Bou:

""Não houve pré-publicidade ou cerimônia formal de inauguração. Barrie, que não só não conseguiu permissão para colocá-lo em Kensington Gardens, insistiu em que fosse erguida no meio da noite para dar a ilusão de que a escultura havia aparecido por magia. Assim, a estátua apareceu "magicamente" em 1º de maio de 1912 (o primeiro de maio), no mesmo dia em que Barrie colocou o seguinte anúncio no The Times:

"Há uma surpresa para as crianças que vão a Kensington Gardens para alimentar os patos no Serpentine esta manhã. Descendo pela pequena baía no lado sudoeste da cauda da Serpentina eles encontrarão um presente de maio pelo Sr. JM Barrie, uma figura de Peter Pan soprando sua flauta no toco de uma árvore, com fadas, camundongos e esquilos por toda parte. É o trabalho de Sir George Frampton, e a figura de bronze do menino que nunca cresceria é deliciosamente concebida. "" (Veja nota 2)

Havia sido, portanto, uma obra das fadas...


Evidentemente, as autoridades locais nada puderam fazer e a estátua permanece lá até os dias de hoje encantando gerações desde 1912. Tornou-se um dos principais atrativos do Kensington Gardens para multidões de visitantes, especialmente nos meses de Verão.

E ela é realmente muito linda... (Veja nota 3)
Repleta de significados relacionados a um universo encantado. Peter está sobre um tronco de árvore, tocando sua flauta (aqui representada em um formato diferente). Fadas, coelhos, camundongos, esquilos e pássaros estão com ele




 















Enquanto estava escrevendo este post, me deparei com uma informação triste sobre a estátua de Peter Pan em Kensington Gardens, publicada estes dias em alguns sites.
A administração do Kensington Gardens fez mudanças radicais no local onde se encontra a estátua, movida por objetivos que não estão agradando algumas pessoas e uma delas é o sobrinho-neto de James Matthew Barrie, David Barrie.

As mudanças colocam o monumento apoiado num pedestal elevado, para "dar maior acessibilidade", dizem; inclui ainda modificação nos elementos de paisagismo, tão radicais que parece que o monumento foi trocado de local, pois antes ficava semi-oculto, não era facilmente visível e isso foi proposital. Era para ser "descoberto" pelas pessoas quando estivessem muito próximas a ele. E subentende-se perfeitamente a intenção de Barrie: Peter Pan não é para todos; é preciso estar em sintonia com a "floresta", com os mistérios e a magia... Portanto, se você se limitasse aos percursos óbvios do parque, não o veria... 
As mudanças incluem, ainda, grades no entorno. Isto é: descaracterização da área e dos significados...

As obras foram realizadas em 2018.

O sobrinho-neto de Barrie fez um desabafo ao Sunday Telegraph, no dia 13 de Abril passado: (Veja nota 4)

David Barrie
Foto de  Geoff Pugh
 Via

"Ele teria ficado nauseado com a elevação de Peter Pan neste tipo de ícone, sentado em cima deste grande pedestal."

David diz ter descoberto a modificação por acaso, ao visitar os jardins e afirmou:

"Meu queixo caiu. Havia grandes tratores rasgando o lugar. Eles estavam orgulhosamente proclamando em um cartaz que tudo ia ser novo e maravilhoso... Quem inventou esse esquema simplesmente não entende. Não é por isso que a coisa foi encomendada e não é por isso que foi colocada onde estava. Apenas comunica todas as mensagens erradas.
Este pedestal grandioso e desajeitado, assim como o paisagismo, parecem-me completamente em desacordo com o objetivo de JM Barrie, que era que a estátua deveria surpreender o visitante e misturar-se ao ambiente, crescendo fora do solo, como uma árvore...
Sua posição foi cuidadosamente considerada por Barrie. Não foi por acaso que estava no nível do solo e que estava em um pequeno recanto de arbustos onde você não a veria até que estivesse certo. Agora o que eles fizeram? É neste pedestal pomposo, feio, cercado com estas grades... Levantado, perdeu contato com a terra."

De minha parte, concordo plenamente com o sobrinho-neto de Barrie. Simplesmente porque essa atitude é descabida, revela o desconhecimento pleno da administração dos jardins a respeito da história de Peter Pan, apaga significados, intenções, motivações. Apaga a história.

Aliás, é isso que toda e qualquer releitura faz. Em nome da "modernidade", faz-se muita besteira. 

Queria poder compreender por que as pessoas têm necessidade de alterar radicalmente o que outras pessoas fizeram, por que as pessoas insistem em querer "adaptar" o passado aos dias de hoje...

Eis a proposta da administração do Kensington Gardens:


Observem a imagem acima: o monumento está completamente exposto, tornou-se algo destituído de qualquer magia e mistério. David Barrie explica muito melhor do que eu:

"Parece ter sido movido vários metros de seu local original, ele disse:" Nos velhos tempos, você chegava a uma esquina, e de repente você era confrontado com esta escultura não muito grande que foi escondida em meio a arbustos em torno dos três lados. Foi muito charmoso. Isso foi exatamente o que ele pretendia. Não foi para ser um grande gesto público...
“Era para ser algo um pouco engraçado, sutil, discreto e caprichoso. Em vez disso, eles agora roubaram todas essas qualidades."

Realmente uma pena. 

Em sua defesa, a administração do parque diz:

Andrew Williams, gerente do Parque Kensington Gardens, disse: “O pedestal existente sob a estátua era difícil de manter e não fornecia acesso total à estátua. Nós nos reunimos com os principais grupos residentes locais em torno do Hyde Park e Kensington Gardens, na fase de planejamento, para discutir melhorias propostas para a área. O novo projeto de paisagismo proporcionará melhor acessibilidade para que todos possam apreciar a estátua, e estamos plantando flores silvestres na área para melhorar o meio ambiente ”.  

 “o trabalho de paisagismo irá [evocar] a 'mágica' de Peter Pan [e] melhorar a acessibilidade à estátua”.

Uma total e absoluta falta de noção e de conhecimento...
Ele diz que se reuniram com os "principais grupos locais"... Só esqueceram de consultar os membros remanescentes da família de Barrie...

E as grades? Se tem uma coisa que não combina nadinha com Peter Pan e com seu criador, são as grades!
E aí me veio na mente, instantaneamente, a narrativa do livro "Peter Pan in Kensington Gardens", quando ele tenta voltar para sua mãe e encontra a janela fechada e protegida por grades de ferro...

Irônico, não?
Irônico e triste...
Eu ia pedir a Deus que um dia me concedesse a bênção da oportunidade para contemplar pessoalmente a estátua de Peter Pan. Mas até perdi a vontade.

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Até o próximo post!
Beijo
Ju

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Notas:

(1) Conforme o romance "The Little White Bird", publicado em 1902. Sobre o Dia de Maio, veja: 

(2) http://historiayculturab2010.blogspot.com/2010/04/peter-pan-statue-in-kensington-gardens.html


No link citado acima você pode ler descrições mais detalhadas dos elementos que compõem a estátua.








quinta-feira, 18 de abril de 2019

Seguindo as pegadas de Peter Pan (o meu Peter Pan)



Olá!

E chegou o momento de compartilhar com vocês a minha versão do Peter Pan, em formato de boneco de pano. Ufa, finalmente, você deve estar dizendo a si mesma, rsrsrsrs. Mas como dizia o sábio rei Salomão: tudo tem seu tempo determinado...

Peter Pan é muito mais que um personagem de uma peça teatral ou de um livro: ele é uma amálgama de todas as pessoas que fizeram parte da vida de James Matthew Barrie, incluindo ele mesmo. Por isso não é possível compreender a essência de Peter Pan sem conhecer o contexto de sua criação. Mas não se engane: mesmo assim, ele não se deixa decifrar plenamente, assim como o seu criador. 

Minha pesquisa tem sido uma gratificante e surpreendente viagem ao passado. As informações que encontrei - e continuo encontrando - estão muito além das minhas expectativas iniciais e pude compreender tudo que há por trás da lenda e tudo que não faz parte de Peter Pan. Quebrou paradigmas e concepções que, infelizmente, predominam na indústria do cinema, no teatro, nas publicações, no universo dos ilustradores e em toda a parafernália que a indústria de brinquedos vem produzindo há décadas.

A mídia, o marketing, os interesses econômicos, contribuem para desconstruir o personagem, distorcer a história e favorecer o esquecimento de sua origem e, até mesmo, de quem foi seu criador. Somente quando se busca as informações é que descobrimos o quanto perdemos quando nos deixamos levar pela superficialidade do que nos é dito e mostrado. E isso não acontece apenas com Peter Pan.

Tive a ideia de contar a história aqui no blog, da forma mais resumida possível, até chegar no romance Peter and Wendy publicado em 1911 quando, então, eu poderia mostrar minha versão do personagem, pois só assim teria um sentido pleno para mim. Peter and Wendy é a versão definitiva e foi neste livro que encontrei os elementos de que precisava para, finalmente, construir o meu Peter Pan do jeito que eu pretendia.

Queria uma versão livre das influências de todas as concepções equivocadas que surgiram a respeito da aparência do personagem, especialmente após 1953. Uma versão plena de sentido para mim depois de tudo o que li e aprendi e continuo a ler e aprender.

Queria uma versão original, única e consegui.

O resultado final mescla elementos presentes em "The Little White Bird", o livro de 1902, quando Peter Pan aparece pela primeira vez e elementos presentes em "Peter and Wendy".

Os elementos do primeiro livro estão presentes na minha versão de modo subjetivo, metafórico, digamos assim. Os elementos do segundo livro são mais concretos e evidentes à primeira vista.

Naturalmente, incluí elementos do meu próprio imaginário, isto é, elementos que para mim fazem sentido no contexto todo, a partir do que pude captar e expandir dentro de uma lógica simples.

E eis meu menino, andando na "floresta" com seus cabelos ao vento...

Os cabelos

J.M. Barrie nunca mencionou a cor dos cabelos de Peter Pan, mas era escocês e é comum os escoceses serem ruivos ou castanho-avermelhados. Bingo! Escolhi essa cor para dar ao visual do meu Peter Pan um sentido de "raiz" étnica, mesmo que os garotinhos da família Llewelyn Davies não tenham nascido com essa cor de cabelo.
Como fazer os cabelos do Peter Pan foi um dos desafios deste projeto. Finalmente, a conclusão mais lógica: cabelos "ao vento", que remetem aos vôos de Peter Pan e à sua vida ao ar livre.


A roupa de Peter Pan

No romance de 1902, que apresenta Peter Pan bebê, o personagem surge vestido com sua camisola de dormir, mas em pouco tempo passou a viver nu. O que sobrara de sua camisola foi utilizado para servir de vela de navegação no seu ninho feito pelos pássaros Tentilhões. Você pode rever aqui

No teatro, em 1904, Peter Pan recebeu um figurino apresentado em duas versões, que você pode ver na Parte 8 da história e, finalmente, no romance de 1911, Peter Pan está vestido com uma roupa feita de folhas esqueletizadas (skeleton leaves), claramente descrita no livro e mostrada nas ilustrações de Francis Donkin Bedford. A roupa foi feita pelas fadas, que estavam habituadas a trabalhar com esse material:
Fadas confeccionando uma cortina de Verão com folhas esqueletizadas
Ilustração de Arthur Rackham, 1906
"Peter Pan in Kensington Gardens"

A roupa de Peter Pan, no romance de 1911
Ilustração no Capítulo 1 - Edição da Zahar

Ilustração no Capítulo 8 - Edição da Zahar

Trecho do Capítulo 1 - Edição da Zahar, página 42

Bem, vocês podem imaginar o que aconteceu, certo? Sim, lá fui eu atrás de saber o que são folhas esqueletizadas!
Não só descobri o que são como também fui apresentada a uma arte muito antiga, incrível e sofisticada e, melhor ainda: pertinho de Holambra há quem produza folhas esqueletizadas artesanalmente, com alto grau de cuidado e qualidade, reproduzindo o processo que a natureza faz todos os dias a partir do momento em que as folhas caem das árvores.

Vejam, que lindas!
 


 Em outra oportunidade farei um post sobre essas folhas.

Imaginem uma pessoa com um sorriso de orelha a orelha quando se deu conta de que poderia reproduzir a roupa descrita no romance de 1911. Isso mesmo, euzinha aqui, que durante dias ri sozinha e me beliscava para ter certeza de que era verdade, kkkk

As folhinhas que utilizei para a roupa do meu Peter Pan medem entre 2 a 5 cm. Delicadas e ao mesmo tempo, muito resistentes





A roupa que fiz para Peter Pan remete, de certa forma, à natureza e à alma do personagem descritas no romance de 1902. Neste livro, Peter Pan é descrito como meio humano e meio pássaro. Quando ficou pronta e colocada nele, não pude evitar a associação imediata da aparência das folhas com as penas dos pássaros.

Algumas folhinhas foram parar nos cabelos do meu menino que, no romance de 1911, não usa chapéu.

A flauta...
No romance de 1902 Peter Pan construiu uma flauta de tubos utilizando juncos. Não é mera coincidência: trata-se da flauta de Pã, o deus grego dos bosques e das montanhas e outras coisas também. A flauta de Pã também foi feita de juncos, segundo reza a lenda da mitologia grega. Há uma estreita relação - e nem um pouco aleatória - entre o nome Pan de Peter Pan e o deus  da mitologia. Mas este é um outro assunto...

No romance de 1911 e na estátua que foi erguida em 1912 no Kensington Gardens, o formato da flauta é outro, mas optei por manter este.


Peter Pan não calça sapatos nem nada parecido no romance de 1911, então acrescentei um detalhe nos pezinhos dele: deixei sujinhos de terra...


A espada...
Assim como toca flauta, diverte as fadas e todos os habitantes da Terra do Nunca com sua alegria, Peter Pan, apesar da pouca idade que tem, também é capaz de portar uma arma e fazer uso dela em diversas situações. No romance de 1911 Peter usa uma espada. Mantive os dois elementos - flauta e espada - para enfatizar essa característica fundamental do personagem, mas optei por uma espada curta, mais proporcional ao tamanho do meu Peter Pan. Ele mede 40 cm de altura.



Peter vigiando (rsrsrs) a casinha construída para Wendy e segurando sua espada
Ilustração no Capítulo 6 - Edição da Zahar

Outras duas ilustrações em que o personagem está com sua espada
Ilustração do Capítulo 13 - Edição da Zahar

Ilustração do Capítulo 15 - Edição da Zahar

E aqui ele continua seu passeio entre árvores, pedras, musgos e folhas secas...

 

 


A expressão facial 






Propositalmente, a expressão facial do meu Peter Pan não é alegre, porque J.M.Barrie raramente sorria; porque Peter Pan é fruto de uma história pontuada por eventos trágicos desde que o autor tinha 6 anos de idade; porque a eterna criança é a representação da percepção consciente de J.M.Barrie de que ele nunca seria um homem pleno e isso o atormentava; porque Peter Pan não foi criado para ser um herói, e sim o vilão da história.

A ideia inicial do autor mudou logo após a estréia da peça de teatro: o Capitão Gancho foi incorporado posteriormente no papel de "vilão", mas originalmente ele foi criado para, apenas, aparecer entre uma troca de cenário e outra (que eram demoradas), e o público precisava ser entretido enquanto o processo acontecia.

É um personagem polêmico e quase desisti dele, mas segui em frente, à medida que ia compreendendo todas as razões...

E o nome?

Peter é homônimo do menino Peter Llewelyn Davies e Pan, como já mencionei mais acima, vem do personagem da mitologia grega Pã, deus dos bosques e montanhas, entre outras coisas. Pã também está associado à um modo de vida bastante distinto dos padrões convencionais - particularmente os padrões da época em que Barrie viveu - e a associação deliberada que Barrie fez explica muita coisa a respeito do personagem.

Por fim, não poderia faltar o registro de um elemento essencial em Peter Pan: a sombra


E é isso. Projeto concluído após quase dois meses de trabalho e estou muito, muito feliz!

Mas a história não acaba aqui, rsrsrs.
Ainda continuo a escrever e a sequência da série Seguindo as pegadas de Peter Pan continuará até o ano da morte do seu criador.

Até o próximo post!
Beijo
Ju